O que separa o Violão Flamenco do Violão Clássico?

Mesmo compartilhando suas origens e seus métodos de construção, demandas musicais distintas requerem que o violão clássico e o violão flamenco apresentem diferenças nas madeiras e nas suas dimensões. A diferenciação tradicional é muita clara e tem como principais elementos:

 

  • Materiais: A violão clássico é geralmente construído com tampo de Cedro Canadense ou Abeto  e  com laterais e fundo de Jacarandá, Mogno, entre outras (como Louro, Canela ou Ipê), o que realça seu sustain. Já o violão flamenco é geralmente construído com tampo de Abeto e com laterais e fundo de Cipreste ou, em alguns casos, com Mogno ou Jacarandá, o que realça seu volume e enfatiza o toque nas notas (pouco sustain).
  • Dimensões:  O corpo do violão clássico é geralmente mais profundo. No violão flamenco, as cordas estão mais próximas do tampo para facilitar o golpe, apresentando muitas vezes um “golpeador”, folha de plástico que protege seu acabamento.
  • Som: O violão clássico é projetado para o solista ter as ferramentas para executar músicas poli-tímbricas, idealmente “uma orquestra numa caixa”. O toque é suave com um longo e gradual decaimento. Por sua vez, o violão flamenco é projetado para ser executado juntamente com o som do sapateado dos dançarinos, apresento um som com rápido decaimento.

Hoje, essas diferenças já são naturalizadas dentre os músicos e os construtores de violão. Mas da onde vem essa diferença? Se eles têm a mesma origem, porque cada tipo de música especializou seu violão com características tão marcantes? Bom… para isso precisamos voltar na história.

O que hoje reconhecemos como “violão” , nem sempre foi assim. Passando por diversas variações,  seu modelo final  – o que conhecemos hoje – foi desenvolvido em meados dos anos 1850. Nesse momento nasce o “violão moderno” ou “violão espanhol”, cujo principal expoente foi o construtor espanhol Antonio  de Torres Jurado. Nessa época, não havia a diferenciação entre os tipos de violão (flamenco / clássico). E é aqui que começa nossa história.

Torres teve a sorte de viver quando um novo estilo músical estava emergindo em Andaluzia: o flamenco. Executado por famílias ciganas, o novo estilo surpreendia pelo por seu caráter extravagante. Nessa época, ele ganhou o interesse de construir um violão adequado para o estilo, usando uma madeira barata e disponível na região: o cipreste. Nesse momento surge o violão moderno, o modelo criado pelo jovem luthier.

Esse modelo de construção se espalha pela Espanha nas mãos de Francisco Tarrega, que adquiriu o um instrumento de Torres em 1864. Devido ao seu sucesso, quase da noite pro dia todos os construtores espanhóis se adequaram ao novo método de construção que ali chegara. Nessa época, os materiais que compunham o violão eram apenas motivados pelo custo – os mais baratos com Cipreste e os mais caros com Jacarandá – sem diferenciação pelo estilo musical. É com Andrés Segovia, anos mais tarde, que o apartheid musical entre os dois tipos de toque de violão aparece.

Segovia foi um dos primeiros grandes entusiastas do uso do violão na música clássica e sua divulgação. Não é atoa que foi ele que introduziu o instrumento em conservatórios e universidades. Mas algo o incomodava: violonistas ciganos, que usavam do instrumento para tocar flamenco, estavam fazendo tanto sucesso quanto violonistas de música clássica. Segovia começou, então,  sua campanha de “resgatar o violão das mãos nervosas dos ciganos”.

Ao longo de sua carreira, Segovia só tocava em violões de jacarandá, e essa associação ficou tão firmemente aderida nas mentes de seus seguidores, que qualquer violão que não tivesse esse aspecto foi imediatamente rejeitado como não sendo uma violão clássico “adequado”,  já que todo violão com Cipreste era “coisa dos ciganos”. Temos aqui a origem do “modelo ideal” do violão clássico e a categorização do que é um violão flamenco*, conceitos esses usado até hoje!

E é com essa breve histórica, repleta de preconceitos e contradições, que emergem as diferenças tão marcantes entre os dois tipos de violão. Hoje essa diferença é naturalizada, sem ter um fundamento desse tipo. Mas em certos locais, principalmente na Espanha, resquícios dessas tensão ainda aparecem. Não devemos romantizar a história, pois o que está feito está feito. O importante é o que venhamos a decidir com o foi feito dela! Então segue o questionamento: a naturalização do jacarandá ser a “melhor madeira” para o violão é baseada em testes e estudos ou na tradição que se criou nessa época?

*Essa associação deve ser entendida como errada, visto que há violões flamencos de jacarandá (“guitarra negra”).

Fontes:

“Antonio De Torres: Guitar Maker-His Life and Work” de José L. Romanillos

https://en.wikipedia.org/wiki/Talk%3AAndr%C3%A9s_Segovia%2FArchive_1?oldformat=true

 

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